Anfêmera. Uma luz sobre a (in)visibilidade e (r)existência da mulher na envelhescência

Mari Gemma De La Cruz

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De modo especial, percebemos que na envelhescência feminina as “imagens da casa, dos móveis, dos objetos são traduzidas em poemas visuais, que nos fazem perguntar: Como os refúgios efêmeros recebem, às vezes, de nossos devaneios íntimos valores que não tem qualquer base objetiva? *
As mulheres ao vivenciar a fase de envelhescência passam por diversas mudanças que impactam as dimensões biológica, estética, psicológica, relacional, profissional e na saúde. Por outro lado, é possível dar um novo sentido com mais liberdade, mas que é reprimido pelos modelos sociais que
transformam o envelhecimento em algo não-natural e doentio, que deve ser combatido e apagado.
Este projeto, que também é autobiográfico, se baseia no movimento psíquico que leva mulheres a vivenciar padrões de ordem biopsicosocioambiental, potencializados pela invisibilidade e obsolescência social. Existe, portanto, um problema ético na envelhescência feminina, calcado tanto na contradição entre valorização e desvalorização da senectude, quanto na crise do paradigma cultural que sustenta a sociedade atual.
A percepção desta situação incômoda e dolorosa teve como gatilho a morte de minha mãe, aaposentadoria por invalidez, a saída dos filhos de casa e a reforma da mesma, para transformar os antigos espaços de convivência, cuja existência não fazia mais sentido. Uma nova identidade precisava ser construída interna e externamente. Muitas coisas foram doadas, mas antes
fotografadas, convertendo-as em imagens testemunhas da história, para que eu pudesse visitá-las.
O registro das performances, sempre de forma solo e intimista, iniciou em 2019 e foi concluído em 2020, poucos dias antes do confinamento ocasionado pela COVID19. Foram produzidas imagens em longa exposição, com sobreposição de filamentos sanguíneos e o uso do mesmo vestido, costurado a partir daquele usado para o casamento da primeira filha. As imagens representam aspectos resultantes da interação com a casa, seus ambientes, móveis, objetos e roupas, produzindo rastros de memória de um passado verdadeiro e construtor da topografia de meu ser.
Trabalhar esta anima que me anima atualmente, misturando vida e obra numa densa trama, evidenciaram diversas unidades de significado se apresentam em camadas, tais como: a acumulação de objetos, a solidão, o ninho vazio, a menopausa, a inutilidade, a invisibilidade, a morte, a solidão, a dor física emocional, a modificação do meu corpo, as marcas da passagem do tempo, a memória, a desconstrução e a liberdade. Este processo me proporcionou a ressignificação deste momento e possibilitará que outras pessoas possam se aproximar e se conectar com estas imagens na perspectiva do seu próprio contexto, apoiando a recordação de seres vivos e não-vivos, ausentes e
presentes, dando vazão à existência, à troca e ao resguardo da memória de uma vivência anfêmera e efêmera, isto é, do meu cotidiano fugaz.

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Mari Gemma De La Cruz
Cuiabá – MT
Curadora  Fotógrafa  Produtora cultural  Tratadora de imagens
@marigemma.art