
O ensaio investiga visualmente a condição contemporânea do ser humano a partir de sua relação com a natureza. O título evoca dois estados distintos: Kaos – condição originária de potência e indistinção entre homem e mundo, e Caos – ruptura desse equilíbrio primordial.
Nas imagens, o corpo humano aparece fundido à matéria da paisagem. Rostos emergem da casca das árvores, da terra úmida, das folhas e da vegetação, criando figuras híbridas nas quais a fronteira entre humano e natureza se dissolve. A pele torna-se textura mineral ou vegetal; o rosto parece brotar da própria floresta. Essas fusões sugerem um tempo arcaico em que o ser humano participava da ordem natural.
A presença da argila sobre o corpo intensifica essa ideia de origem. A terra cobre o rosto, a pele, transformando o indivíduo em figura primordial, quase mítica, como se fosse modelado pela própria matéria da paisagem. A fotografia revela, assim, um corpo que retorna simbolicamente àquilo de que foi feito.
Entretanto, essa unidade é interrompida. Surgem resíduos, embalagens e objetos descartáveis, espalhados sobre o corpo ou misturados ao ambiente. Esses elementos introduzem uma ruptura visual no campo natural, indicando a passagem do Kaos primordial para o Caos produzido pela ação humana. O corpo que antes parecia integrado à terra passa a carregar os vestígios de uma civilização marcada pelo consumo e pelo descarte.
A construção das imagens baseia-se na sobreposição de camadas visuais. Paisagem, corpo e matéria vegetal se entrelaçam, criando superfícies complexas onde natureza e cultura coexistem de forma instável. O retrato deixa de representar apenas um indivíduo e passa a funcionar como território simbólico, lugar onde se inscrevem as tensões do mundo contemporâneo. O ensaio propõe uma reflexão sobre pertencimento e perda. O corpo humano aparece simultaneamente como parte da natureza e como agente de sua transformação, sugerindo que o drama do presente reside nessa passagem.













